03/08/2007 | por: Ricardo Oliveira
Defeito de Argumentação
Pode haver vários erros de argumentação num texto dissertativo. Hoje, vamos falar das palavras de conceito amplo que são usadas no sentido vago. Emprego de noções confusas, como violência. Tanto Bush como Saddam usaram essa Palavra, falando contra ela, mas os dois a praticaram. Ambos a usaram num sentido oposto. Essas palavras, com caráter amplo e vago, precisam ser definidas antes de serem exploradas como argumento para apoiar qualquer Ponto de vista. Do contrário, perde o seu poder de persuasão. Na língua, existem muitas palavras pertencentes a esse tipo de repertório, como: Liberdade, Democracia, justiça, ordem, alienação, massificação, materialismo, Idealismo. Dentre elas, há algumas carregadas de valor positivo: paz, justiça, honestidade, Democracia. Outras, com valor negativo, como: guerra, injustiça, desonestidade, violência, autoritarismo. Alunos, muito freqüentemente, usam tais palavras em redações, abusam de seu uso em argumentação de fundo moralizante. Veja alguns exemplos: a) O problema dos posseiros e a luta pela terra não têm sentido, pois perturbam a ordem estabelecida. O que é ordem estabelecida? Faz-se necessário explicar, pois a ordem estabelecida varia de acordo com as ideologias. Para Fidel Castro é uma, para Bush é outra. b) Deve-se respeitar o professor porque, afinal de contas, na escola ele é uma autoridade. Respeita-se qualquer autoridade, mesmo que ela seja arbitrária? A explicitação iria enriquecer os argumentos. Pensar por fórmulas prontas é um mau sintoma, pois denuncia falta de espírito crítico e de competência para elaborar um raciocínio próprio; é, enfim, uma sujeição preguiçosa ao Ponto de vista circulante no meio social. A boa argumentação deve ser usada de maneira adequada a cada situação, sem usar lugares-comuns (trecho adaptado do livro Lições de Textos: Leitura e Redação, de Platão e Fiorin, editora Ática, 1.ª edição). generalizações Emprego de noções de totalidade indeterminada (as generalizações) é um defeito grave de argumentação. Veja alguns exemplos negativos: Todos os políticos são iguais: só querem o poder para encher os próprios bolsos. O comunismo e o Capitalismo, no fundo, são a mesma coisa. Os países latino-americanos são diferentes em tudo: nos hábitos, nos costumes, na concepção de vida, nos valores, etc. Esse modo de argumentar demonstra falta de visão analítica, falta de informação e é sintoma de uma mente preguiçosa, que apaga as diferenças e as reduz a uma sombra neutra que esconde dados completamente diferentes. Às vezes, essa argumentação acontece pelo simplismo ou pelo comodismo do redator, mas quase sempre se revela mal intencionada Conceitos errôneos Palavras como sistema, estrutura, classe social, práxis, infra-estrutura, superestrutura, burguesia, corpo social, manipulação, cultura de massa, socialismo, Idealismo, estruturalismo e tantos outros possuem conceitos definidos, bem delimitados. E alunos, às vezes, para exibir erudição, usam-nas em seus textos sem denominar bem o seu conceito. Empregam até termos de correntes científicas opostas entre si, sem saber disso. Exemplos: a) Professores e alunos pertencem a classes sociais distintas; os primeiros, à burguesia; os últimos, ao proletariado. Os conceitos de classe social, burguesia e proletariado estão empregados de maneia inadequada. b) Não se deve negar ao cidadão o direito de protestar: isso já é comunismo. Empregou comunismo por ditadura. Nos regimes comunistas falta a Liberdade, mas os conceitos são diferentes, não são palavras sinônimas. Hélio Consolaro é professor de Português, cronista diário da Folha da Região, presidente da Academia Araçatubense de Letras, coordenador do Site Por Trás das Letras.