01/09/2007 | por: Ricardo Oliveira

Matriuzes

Freqüentemente nos deparamos com conjuntos de números que são operados essencialmente da mesma maneira, isso sugere tratá-los em bloco. No que segue, procuraremos desenvolver essa idéia e descobrir como devemos realizar a mais importante operação com tais blocos, que é a chamada multiplicação matricial.

 

Chamamos de matriz a qualquer tabela retangular de números, ou outro tipo de objetos matemáticos que pretendemos operar em bloco, simultaneamente.

 

Exemplo 1 :

 

Uma locadora de automóveis tem duas lojas, L 1 e L 2. O cliente que locar um carro pode devolvê-lo em qualquer uma das lojas.

A locadora fez estatística que indica que 80% dos carros locados na loja L 1 são aí devolvidos, e que 60% dos alugados na loja L 2 são lá entregues.

Sendo x 0 , y 0 os percentuais de carros que hoje estão nas lojas L 1 e L 2 , deseja-se saber os percentuais x 1 e y 1 de carros que estarão nessas lojas no dia de amanhã.

 

Solução:

É fácil ver que:

 

       x 1 = carros vindos da própria L 1 + carros vindos da L 2 = 0.80 x 0 + 0.40 y 0

       y 1 = carros vindos da L 1 + carros vindos da própria L 2 = 0.20 x 0 + 0.60 y 0

 

Os cálculos para determinar x 1 e y 1 são muito parecidos, o que sugere dar-lhes um tratamento simultâneo, matricial. Para isso, é fácil ver que basta dispô-los em quadros ou tabelas, como abaixo, de modo a termos um quadro, tabela ou matriz de percentagens "multiplicando" a tabela ou matriz das quantidades atuais de carros nas lojas:

 

x 1 =  0.80 0.40  .  x 0

y 1  0.20 0.60   y 0

 

O interesse da noção de matriz resume-se a propiciar uma disposição mais limpa do cálculo ? Não! Há muito mais do que isso. Por exemplo, podemos combinar o que fizemos acima, na passagem hoje - > amanhã, com o que podemos semelhantemente fazer com a passagem amanhã - > depois de amanhã, e assim expressar a distribuição dos carros daqui há dois dias em termos da distribuição atual .

 

Vejamos como! Indicando por P a matriz das percentagens, e c n a matriz coluna que dá as quantidades x n e y n de carros, em L 1 e L 2 respectivamente, no dia n, vimos que d 1 = P d 0, e analogamente vé-se que d 2 = P d 1.

De modo que: d 2 = P d 1 = P ( P d 0 ) .

 

O cálculo acima ficaria ainda mais elegante, se pudéssemos apagar os parêntesis e então poder escrever:

 

d 2 = P d 1 = P ( P d 0 ) = P P d 0 = P 2 d 0 .

 

Para ver que isso é possível e para descobrir como fazé-lo, basta observar que:

 

        x 2 = 0.8 x 1 + 0.4 y 1 = 0.8 [ 0.8 x 0 + 0.4 y 0 ] + 0.4 [ 0.2 x 0 + 0.6 y 0 ]

        y 2 = 0.2 x 1 + 0.6 y 1 = 0.2 [ 0.8 x 0 + 0.4 y 0 ] + 0.6 [ 0.2 x 0 + 0.6 y 0 ]

 

ou seja:

 

        x 2 = [ 0.8*0.8 + 0.4*0.2 ] x 0 + [ 0.8*0.4 + 0.4*0.6 ] y 0

        y 2 = [ 0.2*0.8 + 0.6*0.2 ] x 0 + [ 0.2*0.4 + 0.6*0.6 ] y 0

 

de modo que:

x 2 =  0.8*0.8 + 0.4*0.2 0.8*0.4 + 0.4*0.6 .  x 0

y 2  0.2*0.8 + 0.6*0.2 0.2*0.4 + 0.6*0.6  y 0

 

Assim vemos que, examinando as duas maneiras de escrevermos d 2 em termos de d 0, vemos que temos de definir o produto de duas matrizes da seguinte forma:

 

a b   a' b' =  aa' + bc' ab' + bd'

c d   c' d'    ca' + dc' cb' + dd'

 

É imediato generalizar essa definição para o caso de duas matrizes quadradas e tamanho ( igual ) qualquer, sempre usando a chamada Regra LICO para formar os elementos da matriz produto: multiplica-se cada LInha da matriz da esquerda por cada COluna da matriz da direita.

 

É também imediato vermos que essa noção de produto aplica-se à matrizes não-quadradas, DESDE que o tamanho das linhas da matriz da esquerda seja igual ao tamanho das colunas da matriz da direita.

 

Mas, continuemos a mostrar as vantagens de trabalhar matricialmente.

 

Agora, podemos expressar facilmente a quantidade de carros nas lojas em qualquer dia. Por exemplo:

Daqui a uma semana teremos uma distribuição de carros d 7 que é dada por d 7 = P 7 d 0 = P P P P P P P d 0 .

Se a companhia tiver, daqui a uma semana, uma distribuição de carros d * então pode garantir que no feriado, que ocorrerá um mês depois, terá:

 

d 37 = P 30 d * .

 

Mais importante, vejamos se a longo prazo, após muito tempo de funcionamento da locadora, a distribuição dos carros se estabiliza. Se isso ocorrer, então, para n grande, os valores de d n e d n+1 serão praticamente iguais. Sendo d essa distribuição comum, teremos:

 

d = P d

 

de modo que, sendo x e y as componentes de d, temos as seguintes três equações:

 

        x = 0.80 x + 0.40 y

        y = 0.20 x + 0.60 y

        x + y = 1 ( ou seja: 100 % ).

 

É fácil resolvê-las, achando-se: x = 1 / 3 , y = 2 / 3 , ou seja:

a longo prazo:

 

        33.3 % dos carros estarão na loja L 1

        66.6 % dos carros estarão na loja L 2

 

1.- Curiosidades em torno do nome matriz

 

O pai do nome matriz

 

Foi só há pouco mais de 150 anos que as matrizes tiveram sua importância detectada e sairam da sombra dos determinantes. O primeiro a lhes dar um nome parece ter sido Cauchy, 1826 : tableau ( = tabela ).

O nome matriz só veio com James Joseph Sylvester, 1850. Seu amigo Cayley, com sua famosa Memoir on the Theory of Matrices, 1858, divulgou esse nome e iniciou a demonstrar sua utilidade.

 

Por que Sylvester deu o nome matriz às matrizes ?

 

Usou o significado coloquial da palavra matriz, qual seja: local onde algo se gera ou cria. Com efeito, via-as como "...um bloco retangular de termos... o que não representa um determinante, mas é como se fosse uma MATRIZ a partir da qual podemos formar varios sistemas de determinantes, ao fixar um número p e escolhar à vontade p linhas e p colunas..." ( artigo publicado na Philosophical Magazine de 1850, pag 363-370 ).

 

Observe que Sylvester ainda via as matrizes como mero ingrediente dos determinantes. É só com Cayley que elas passam a ter vida própria e gradativamente começam a suplantar os determinantes em importância.

 

2.- Surgimento dos primeiros resultados da Teoria das Matrizes

 

Costuma-se dizer que um primeiro curso de Teoria das Matrizes - ou de sua versão mais abstrata, a Algebra Linear - deve ir no mínimo até o Teorema Espectral. Pois bem, esse teorema e toda uma série de resultados auxiliares já eram conhecidos antes de Cayley iniciar a estudar as matrizes como uma classe notável de objetos matemáticos.

 

Como se explica isso? Esses resultados, bem como a maioria dos resultados básicos da Teoria da Matrizes, foram descobertos quando os matemáticos dos séculos XVIII e XIX passaram a investigar a Teoria das Formas Quadráticas. Hoje, consideramos imprescindível estudar essas formas através da notacão e metodologia matricial, mas naquela época elas eram tratadas escalarmente.

Mostremos aqui a representação de uma forma quadrática de duas variáveis, tanto via notação escalar como com a mais moderna notação matricial:

 

q( x , y ) = a x 2 + 2b x y + c y 2 =  x y .  a b .  x

          b c   y

 

O primeiro uso implícito da noção de matriz ocorreu quando Lagrange c. 1790 reduziu a caracterização dos máximos e mínimos, de uma função real de várias variáveis, ao estudo do sinal da forma quadrática associada à matriz das segundas derivadas dessa função. Sempre trabalhando escalarmente, ele chegou à uma conclusão que hoje expressamos em termos de matriz positiva definida. Após Lagrange, já no século XIX, a Teoria das Formas Quadráticas chegou a ser um dos assuntos mais importantes em termos de pesquisas, principalmente no que toca ao estudo de seus invariantes. Essas investigações tiveram como subproduto a descoberta de uma grande quantidade de resultados e conceitos básicos de matrizes.

 

Assim que podemos dizer que a Teoria das Matrizes teve como mãe a Teoria das Formas Quadráticas, pois que seus métodos e resultados básicos foram lá gerados. Hoje, contudo, o estudo das formas quadráticas é um mero capítulo da Teoria das Matrizes.

Observemos, ademais, que os determinantes em nada contribuiram para o desenvolvimento da Teoria das Matrizes.

 

1.- A idéia de transformação

 

Movimentos e deformações no plano

 

transformam cada ponto ( x , y ) de uma figura plana num ponto ( x' , y' ) através de expressão analítica da forma:

 

x ' = f ( x , y )

y ' = g ( x , y )

 

Vejamos dois exemplos iniciais:

 

a TR1 dada por x' = x ,  y' = 2x + y

e

a TR2 dada por x' = x 2 ,  y' = 2x + y .

 

Para facilitar a visuzalização do efeito geométrico dessas transformações, calculemos os ( x' , y' ) correspondentes a alguns ( x , y ) estrategicamente escolhidos:

 

 

TR1  TR2

( x , y )  ( x' , y' )  ( x , y )  ( x' , y' )

( 0 , 0 )  ( 0 , 0 )  ( 0 , 0 )  ( 0 , 0 )

( 0 , 1 )  ( 0 , 1 )  ( 0 , 1 )  ( 0 , 1 )

( 0 , 2 )  ( 0 , 2 )  ( 0 , 2 )  ( 0 , 2 )

( 1 , 0 )  ( 1 , 2 )  ( 1 , 0 )  ( 1 , 2 )

( 1 , 1 )  ( 1 , 3 )  ( 1 , 1 )  ( 1 , 3 )

( 1 , 2 )  ( 1 , 4 )  ( 1 , 2 )  ( 1 , 4 )

( 2 , 0 )  ( 2 , 4 )  ( 2 , 0 )  ( 4 , 4 )

( 2 , 1 )  ( 2 , 5 )  ( 2 , 1 )  ( 4 , 5 )

( 2 , 2 )  ( 2 , 6 )  ( 2 , 2 )  ( 4 , 6 )

 

Compare as transformações nas figuras abaixo:

 

TR 1

 

TR 2

 

Observe que a TR1 preserva retilinearidade e proporcionalidade, o que não ocorre com a TR2. Outra diferença, que será muito importante a seguir, é que a TR1 pode ser representada matricialmente e a TR2 não. Com efeito, é imediato ver que qualquer transformação da forma:

 

x ' = u + ax + by

y ' = v + cx + dy



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