26/07/2007 | por: Ricardo Oliveira

Mar Morto

O livro conta a estória de Guma, um pescador que, cansado das noites frias e solitárias em seu saveiro, pede a Iemanjá para encontrar a mulher da sua vida. Tinha apenas vinte anos e conhecia de cór e salteado todas as estórias e lendas dos velhos marinheiros, além é claro, de já dominar todos os caminhos do mar. Frederico, seu pai, se fôra muito cedo, quando Guma ainda era um menino. Esse era o destino de todos os homens do mar, morrer nos braços de Iemanjá. Numa noite de tempestade, Frederico e o seu irmão Francisco foram surpreendidos pela fúria do mar, que virou o saveiro em que eles estavam. Frederico morreu para salvar o seu irmão. Orfão, Guma foi criado por seu tio, o velho Chico, que havia ficado viúvo no mesmo dia em que o irmão morreu para salvar a sua vida. Guma passou a sua infância inteira sem conhecer o carinho de mãe. Ela o havia abandonado quando ainda era recém-nascido, pois ganhava a vida como prostituta e não tinha condições financeiras para criá-lo. Sua escola era lá mesmo no Cais, onde junto com outros filhos de pescadores e canoeiros aprendeu a ler e a escrever. Das boas lembranças que ele guardava da sua infância, uma era a professorinha Dulce, uma jovem que abandonou a sua vida burguesa na cidade alta, para dedicar-se à educação dos mais humildes. Guma amadureceu precocemente e com apenas 11 anos já guiava o velho saveiro de seu tio, até poder comprar o seu próprio saveiro, o qual batizou de 'valente'.

Muitas mulheres já haviam experimentado o amor de Guma. Uma delas já havia até se tornado lenda na Bahia inteira e também personagem de literatura de córdel. Era Rosa Palmeirão, uma justiceira que carregava punhal no pescoço e navalha na saia. Havia sangrado muitos homens e por isso ganhara fama. Numa tarde de tempestade, estava Guma, o seu amigo Rufino, Mestre Francisco e Rosa Palmeirão bebendo no Farol das Estrelas, quando receberam a notícia que um návio não estava conseguindo encontrar o caminho do Cais, para poder aportar. Um homem desesperado por sua família também estar presente entre os tripulantes, implora a Guma e a outros pescadores para salvar o návio perdido no meio da tempestade. Guma, seguidor fiel da Lei do Cais, aceitou ajudar. A lei do Cais dita a todo o homem do mar, o dever de ajudar todos os que estiverem em perigo nas águas de Iemanjá. À partir desse dia, Guma e o seu saveiro, "o Valente" também se tornariam lenda em todo o Cais da Bahia.

Um dia, numa das muitas festas em homenagem à Iemanjá, Guma foi batizado como Ogan no Candomblé do pai Anselmo. Enquanto as Iaôs dançavam ao som dos atabaques, ele era observado por uma jovem chamada Lívia. Os olhares dos dois se encontraram e sem dúvida alguma, foi amor à primeira vista. É certo que Lívia já conhecia a fama de Guma que se espalhara, e a sua valentia a havia chamado atenção, pois seus tios também eram tripulantes do navio que Guma salvou. Não demorou muito e os dois se casaram. Mestre Francisco bem que aconselhou Guma e ele bem sabia do destino trágico das mulheres do mar. O destino traçado por uma viúvez precoce, igual ao que ocorreu com Judith, que perdeu o seu marido Jacques em um naufrágio. Iemanjá protegia a todos os homens do mar, mas também tinha ciúme e inveja de suas espôsas. Por isso, muitas vezes ela se revoltava e levava os pescadores e canoeiros para as terras do sem fim, onde ela reinava.

Passaram a viver em um quartinho vizinho ao de Rufino, lá mesmo no cais. Rufino estava amaziado com uma mulata de olhos verdes chamada Esmeralda. Ela sentia desejos por Guma e o tentava de todas as formas. Esmeralda apesar disso, era muito amiga de Lívia, e não media esforços para dar em cima de Guma. A mulata traía Rufino descaradamente, até que um dia ele descobriu e para lavar sua honra, afogou-a nas águas de Iemanjá, unindo-se a ela logo depois.

A vida dos pescadores era muito sofrida. O que ganhavam, mal dava para sobreviver. Numa das viagens para Mar grande, Guma bate com o Valente numa côroa de arrecifes. O seu saveiro se espatifa entre as pedras. Com a notícia, Lívia que estava gravida passa mal e o seu filho nasce precocemente. Guma consegue sobreviver ao acidente, mas o saveiro fica irrecuperável.

O doutor Rodrigo vendo a situação precária em que Lívia e Guma se encontravam, e para piorar, com um filho recém-nascido, empresta dinheiro para financiar um novo saveiro. Mas o dinheiro só dá para pagar metade do valor. Guma faz um acordo com o vendedor, que aceita vender parcelado. Os meses passavam, e Guma não conseguia pagar a sua dívida com o doutor Rodrigo e com o vendedor do saveiro, que já começava a lhe fazer cobranças. Para conseguir dinheiro, aceita trabalhar para um árabe, contrabandeando tecidos. Era um negócio arriscado, mas ele precisava de dinheiro. O destino estava traçado. Numa das viagens transportando contrabando, foi surpreendido por um temporal que virou o seu saveiro em um mar repleto de tubarões. Nunca mais ele voltou para casa.

Em vão, procuraram o corpo de Guma...

O destino das mulheres do mar quando enviúvavam era virar mulher-dama, ou procurar um outro marido que as sustentasse. Algumas mendigavam, como Judith, viúva de Jacques. As mulheres do cais, antes de Lívia, não aguentavam trabalho pesado. O destino, pela primeira vez foi mudado. Lívia era forte e não haveria de se mudar para a cidade alta para viver às custas dos tios. Não venderia o saveiro do marido, nem sairia do seu quartinho na beira do cais. Viveria uma vida simples, mas digna. Estaria perto de Guma cada vez que navegasse por àquelas águas que o levaram. Lívia foi a primeira mulher do mar à levar adiante o ofício do marido. E o seu filho haveria de seguir o mesmo ofício.



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